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Ano novo, emprego novo: o que esperar do mercado de trabalho em 2021?

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Por Claudia Gasparini
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Janeiro é um mês-chave para quem busca emprego — e em 2021 isso não será diferente. Após um 2020 marcado pela crise gerada pela Covid-19, que levou o Brasil a taxas recordes de desemprego, o novo ano deverá ser marcado por uma retomada gradual e lenta das contratações, sobretudo com as perspectivas da vacinação em massa ao longo de 2021.

Para este artigo especial da série "A Vaga É Sua", conversei com líderes de algumas das principais consultorias de recrutamento do país para traçar um panorama da recolocação hoje no Brasil.

De partida, já vai um alento: 2021 ainda será um ano difícil, mas as perspectivas para o emprego são relativamente positivas. E não vêm de hoje.

Segundo André Ferragut, gerente sênior da consultoria de recrutamento Hays, o mercado registrou o início de uma retomada nas contratações já no último trimestre de 2020, com liberação de vagas que haviam sido "congeladas" na pandemia e aumento no volume de novos processos seletivos.  

"Esse movimento começou em níveis de gestão e liderança, então acreditamos que novas contratações serão cascateadas para níveis de especialistas e analistas durante os próximos meses", afirma o especialista.

Se no auge da crise as contratações eram muito específicas, com altas exigências, ou se limitavam a vagas de substituição, a perspectiva agora é que aos poucos surjam oportunidades mais similares às oferecidas no pré-pandemia, diz Lucas Papa, gerente sênior da Michael Page e da Page Personnel.

"Neste ano, a projeção é de uma retomada econômica um pouco mais sustentável a partir do segundo semestre, e o retorno das vagas em maior volume deve acompanhar essa volta", diz Lucas. "Os profissionais que estão em busca não devem parar de buscar e se preparar, porque as vagas estão acontecendo".

De acordo com Vítor Silvério, diretor de recrutamento da Robert Half, também houve desde o ano passado um aumento significativo de vagas temporárias e terceirizadas, que também devem seguir em alta neste ano. 

Embora as incertezas permaneçam, o otimismo aumentou nos últimos meses. 

 Segundo a última 13ª edição do Índice de Confiança Robert Half, que entrevista profissionais empregados, desempregados e recrutadores, as percepções sobre o mercado voltaram a ficar acima dos 50 pontos, quando se considera o cenário dos próximos seis meses. Em agosto, o índice bateu 52,9, contra 44,2 em maio.

Essa melhora, contudo, não será imediata — e nem homogênea. De acordo com os especialistas, a velocidade da retomada está diretamente vinculada ao segmento de atuação de cada empresa.

▶ Quais setores deverão abrir mais vagas em 2021?

De forma geral, os segmentos que devem intensificar as contratações mais rapidamente neste ano serão aqueles que foram menos impactados pela pandemia no ano passado.

Segundo André, eles incluem o agronegócio, o mercado de bens de consumo – com destaque para alimentos e produtos de limpeza –, serviços e produtos para saúde e TI, além da cadeia de abastecimento do e-commerce. 

Lucas também cita o mercado de construção civil, que apresentou uma boa perspectiva ao longo de 2020 e conseguiu operar uma adaptação de mercado, mesmo com a crise da Covid-19. A construção voltada à infraestrutura, por outro lado, é um segmento que deve demorar mais a fazer novas contratações. 

Outro setor promissor é o de energia renovável. "O mercado já tinha uma expectativa muito grande para esse setor em 2020 e, apesar de começar mais devagar em 2021, é uma área com grande potencial de expansão, que merece a atenção dos profissionais", diz o gerente da Michael Page.

Por outro lado, os setores econômicos em que a retomada provavelmente será mais lenta incluem a indústria automotiva, de maquinário industrial e indústrias pesadas em geral.

Segundo os especialistas ouvidos pela série "A Vaga É Sua", alguns dos cargos mais demandados em 2021 incluem desenvolvedores, cientistas de dados, gerentes de produto, especialistas em experiência do cliente e profissionais de operações logísticas, além de especialistas em fusões e aquisições, tanto do mercado financeiro quanto do jurídico.

Também devem se manter em alta algumas posições de finanças e contabilidade, em meio à necessidade de otimizar custos, bem como na área de vendas, para a ampliar a geração de negócios.

Independentemente de áreas ou cargos, contudo, vale lembrar que a perspectiva para o emprego em 2021 será fortemente influenciada pela migração para o trabalho remoto, pelas mudanças no comportamento do consumidor e pela ampla digitalização dos negócios.

Sofia Esteves, presidente do conselho do Grupo Cia de Talentos, lembra que o ritmo das contratações voltou a se acelerar — e deve continuar nesse passo em 2021 — à medida que as empresas foram adaptando suas ferramentas e modelos de recrutamento ao isolamento social. 

"No ano passado, muitas empresas deixaram de contratar porque ainda não tinham digitalizado seus processos seletivos e suas práticas de onboarding, transporte de documentos para a contratação e outros processos", explica Sofia. "Neste início de 2021, elas já estão muito mais preparadas nesse sentido". 

Também vale destacar os impactos da Covid-19 na forma de fazer negócios no presente. Ter consciência disso é muito importante para qualquer candidato, afirma Vitor, da Robert Half. "As empresas vão contratar os talentos capazes de ajudá-las a lidar com esse novo cenário desencadeado pela pandemia", afirma ele. 

Na hora da retomada, terão vantagem aqueles que, na medida do possível, conseguiram se reinventar. Nesse sentido, profissionais de qualquer setor que tenham foco em inovação devem sair na frente, diz o gerente da consultoria.

▶ As competências-chave para conquistar uma oportunidade

Quem perseguiu o desenvolvimento pessoal e o aprendizado mesmo com todas as limitações trazidas pela pandemia está sendo extremamente valorizado pelo mercado, segundo André, da Hays. Isso inclui pessoas que investiram em cursos online, oficinas, leituras e outras formas de incrementar sua qualificação durante o período de recolocação.

A capacidade de atuar de forma independente também tem sido cada vez mais bem vista pelo mercado. "Há uma crescente valorização de pessoas adaptáveis, flexíveis e autônomas, já que as organizações estão reinventando as interfaces entre gestores e equipe no novo ambiente remoto", diz ele. 

Com o trabalho à distância, boa comunicação, equilíbrio emocional e facilidade para trabalhar em grupo são competências básicas para ser contratado em 2021 — e além. 

De acordo com Lucas, as habilidades mais importantes do momento também incluem línguas estrangeiras. "Sem pensar em um segmento específico, esse ponto ainda é um divisor de águas para o profissional brasileiro, já que poucas pessoas dominam de verdade um segundo idioma", diz ele.

Especialmente em 2020, vimos que o contato virtual contribuiu para aproximar mais os times globais no dia a dia, o que tornou o idioma um requisito ainda mais importante para a carreira. 

Na visão de Sofia, flexibilidade e abertura a novos modelos de trabalho também são diferenciais em um momento ainda marcado por incertezas e rápidas mudanças.

"Temos visto cada vez mais contratações temporárias, por projetos, por exemplo", diz ela. "Se a ausência de vínculo ainda assusta, por outro lado é uma tendência global e pode trazer recompensas a longo prazo". 

O mesmo vale para vagas em startups, que tiveram um ano promissor apesar da pandemia, representaram uma fatia relevante das contratações em 2020 e ainda devem continuar empregando muitos profissionais no ano que acabou de começar. "Em startups você pode ter menos benefícios, não ter processos definidos, mas aprender muito", afirma Sofia. "É importante investir em autoconhecimento para saber se faz sentido para você".

Em outras palavras, estar aberto para encarar novas formas de atuação — sempre respeitando os seus próprios valores, características e necessidades — pode ajudar a sua recolocação em qualquer mercado neste ano. 

▶ Como se recolocar em um ano difícil— sem perder o ânimo

O ano de 2021 começa com perspectivas um pouco mais favoráveis para o mercado de trabalho, mas ainda será marcado por indefinições e pelos efeitos da pandemia. Para aumentar as suas chances de sucesso, é importante agir de forma estratégica, paciente e metódica. 

Antes de se candidatar a qualquer oportunidade, é preciso garantir que você está se comunicando corretamente com o mercado. Isso inclui um perfil no LinkedIn e um currículo sempre atualizados e completos, com informações sobre formação, experiências e resultados em cada posição, recomenda Lucas, da Michael Page.  

Manter o seu networking sempre ativo também é uma atividade que exige manutenção constante. "Aproveite que ainda estamos em casa para marcar cafés e bate-papos online com seus contatos, que podem, inclusive apresentar para outras pessoas a assim expandir sua rede e mantê-la sempre ativa e relevante", diz ele.

Na hora de procurar vagas e efetivamente se candidatar, o primeiro passo é ter clareza sobre o que você busca. Isso não é um mero detalhe. "Se os valores e a cultura da empresa não são compatíveis com você, as chances de você se frustrar no futuro são grandes", diz Vítor, da Robert Half. 

Para isso, é importante fazer uma avaliação profunda da sua própria carreira.

"Entenda o que você busca em um novo trabalho, quais são as suas ambições", afirma Lucas. "O processo seletivo é uma via de mão dupla, a empresa avalia os candidatos, mas os candidatos também precisam avaliar as empresas".

Esse diagnóstico será essencial para se inscrever unicamente em vagas realmente condizentes com o seu perfil — o que evitará decepções e perda de motivação a médio e longo prazo. 

O grande risco é sucumbir à ansiedade e "atirar para todo o lado", diz Sofia, da Cia de Talentos. "No desespero, muita gente se inscreve para todo o tipo de vaga, mesmo quando não tem a formação ou a experiência necessária para ser chamado pela empresa", afirma a especialista. 

Quanto mais vezes você se candidatar a vagas incompatíveis com você, mais "nãos" vai ouvir e menos ânimo terá para prosseguir na luta.

Daí a importância de dedicar energia apenas às oportunidades que realmente valem a pena. Para identificá-las, o conselho de Sofia é ter um plano de ação bem pensado e registrado.

"Coloque no papel quais são os seus objetivos e qual seria o emprego ideal para você em termos de cargo, atividades, salário, localização geográfica, entre outros fatores", recomenda ela. Depois, determine quais são as competências de que você precisa para conseguir uma vaga assim.

Numa segunda etapa, vale pensar se ainda faltam cursos ou experiências para se tornar um candidato competitivo para aquela vaga. Também é interessante pensar quais detalhes do trabalho você considera menos importantes, e quais são inegociáveis. Isso ajudará a reconhecer quais vagas merecem a sua dedicação, e quais seriam apenas perda de tempo.

Para manter o equilíbrio emocional nessa jornada, também vale contar com o apoio de outras pessoas e ter uma boa dose de disciplina.

"Tenha uma rotina clara e definida , com metas semanais para candidaturas e abordagens de pessoas das suas redes de contato", aconselha André. "Com um dia a dia organizado, você conseguirá fazer um diagnóstico das ações que tiveram melhores resultados para maximizar as chances de encontrar um novo emprego".

Artigo na Integra 

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